Treinamento X Performance
Posted by Unknown on 17:23 with No comments
Treinamento X Performance
Já escrevi sobre isso algumas vezes, mas, em se
tratando de segurança de vôo,
nunca é demais retomar o debate.
Ao longo de vários anos em instrução de vôo, tenho
observado um padrão de
comportamento técnico, infelizmente rotineiro, que
compromete a qualidade e
segurança na decolagem.
É exatamente a perda de rendimento versus segurança na
decolagem, cujo declínio
se faz notar em pilotos, já liberados de instrução,
que contam com mais de 100
decolagens em rampa oficial.
Diga-se de passagem, que isso não ocorre com alunos
recém formados, cuja técnica
de morrote com múltiplas simulações supervisionadas de
decolagem, está bem
assimilada.
É interessante notar que o aluno, no início de vôo em
rampa oficial, demonstra
uma técnica perfeita do procedimento de decolagem,
fazendo do abandono do solo,
o "take off", uma coreografia bonita de se
observar.
Não é difícil se observar um aluno nesta fase
decolando e ter os comentários de
quem assiste dizendo; ´´ Não parece um aluno, mas sim
um piloto experiente ! ´´
Tal constatação, óbvio, infla o ego do instrutor...
A cena padrão é esta:
O aluno recém chegado a rampa oficial de vôo, após
vários meses de treinamento
básico em vários outros morros de menor elevação,
destaca-se com uma atuação
perfeita no procedimento de decolagem.
Nesta fase sua performance durante o vôo ainda é baixa
no que diz respeito a sua
permanência no ar, já que ainda não voa térmicas e
lift. Os seus vôos, embora
com decolagem perfeita, limitam-se a poucos minutos no
ar, fazendo a navegação
padrão até o pouso.
Tempos depois, percebe-se que o piloto recém-formado
experimenta significativa
melhora de performance em vôo. A permanência no ar se
torna mais longa, na
medida em que se aprimoram os fundamentos do vôo
térmico e de lift.
Todavia, paralelo ao seu ganho de performance e
melhoria dentro do vôo em si,
com mais tempo sustentado no ar, percebe-se perda de
qualidade no procedimento
de decolagem. O que dá margem ao risco de sofrer
acidente, no início dos
procedimentos, justamente onde os reflexos, outrora,
eram nitidamente
aprimorados.
Por que isso acontece ?
A razão é simples, matemática:
Parou de treinar um fundamento, e logo esta falta de
treinamento se traduz em
perda da performance e da segurança.
Vamos a um cálculo simples:
Partindo da premissa que nosso novo piloto esteja já
com 100 decolagens na rampa
oficial após a conclusão de seu curso básico.
Quanto tempo leva uma decolagem ?
Aproximadamente 5 segundos
Quanto tempo leva um vôo prego ( vôo direto para o
pouso ) ?
aproximadamente 7 minutos
Então nosso novo piloto, em 100 decolagens, já conta
700 minutos de vôo
treinado, propriamente dito
O que resulta em aproximadamente mais de 11 horas de
vôo / treinamento. Por tal
razão, a performance no ar é cada vez melhor, já que
isso se traduz em
treinamento / horas voadas
Por outro lado, dentro dos 100 vôos, o tempo total
decorrido das decolagens são
de apenas 500 segundos.
Ou seja, o nosso novo piloto dentro de seus vôos só
fez / treinou o fundamento
da decolagem por míseros 8 minutos !
8 minutos de treinamento...
Isto é, a prática de 100 vôos equivale a apenas 8
minutos de treino sobre a
primeira fase crítica do vôo, que é o fundamento da
decolagem.
É por isso que os vôos estão cada vez mais altos e
mais longos, mas a decolagem
começa a deixar o público na rampa com medo.
Quando se opta por tornar-se um piloto de vôo livre,
deve-se ter em mente que
sua postura em relação à vida deverá com isso sofrer
fortes alterações de
disciplina.
Se você optou em se tornar um piloto de vôo livre, seu
propósito de vida deve
ser o do treinamento constante. Sempre !
Somente com treinamento constante você poderá estar
apto a aproveitar uma das
maiores emoções que um ser humano pode ter, que é voar
livre de uma montanha.
Mas veja, de livre só temos o nome.
Lembro-me da grande campeã Dagma Mazoco, aqui de Venda
Nova do Imigrante - ES,
quando me contava sobre um
comentário que seu pai fez ao ver a movimentação de
pilotos se preparando para
subir para a rampa; ´´ Este esporte não tem nada de
livre, porque na verdade
vocês são todos escravos de uma necessidade constante
de se manter em vôo ´´ e
treinados.
Nunca esqueci esta feliz comparação que o pai da Dagma
fez...
Ele estava completamente correto em sua análise.
Pilotar um parapente / asa delta não é como jogar bola
com seus colegas no
capinho society a cada 10 - 15 - 30 dias, onde sua
falta de treinamento irá
refletir apenas no seu ´´tempo de bola ´´ ou naquele
gol que deixou de marcar ou
que o seu time levou.
Pilotar um parapente exige de você uma constante
atualização de seus
conhecimentos, seja no aspecto técnico e teórico, seja
pelas características
pessoais como coordenação motora.
Porque no vôo ( decolagem como estou abordando ) se
você errar o seu ´´tempo de
bola ´´ você perderá muito mais que apenas o ´´ gol ´´
Interessante notar a carga de treinamento de um atleta
competitivo, de qualquer
modalidade, vôlei, basquete, etc. Os caras treinam
dias, anos, uma vida inteira
tendo apenas como foco ganhar uma medalha, ganhar um
troféu ( alem é claro do
reconhecimento que isso traz ), mas é apenas um
troféu, é apenas uma medalha.
E no nosso caso como pilotos de vôo livre, quando
erramos no jogo, o que
perdemos mesmo ?
Se você se decidiu por se tornar um piloto de vôo
livre, você tem a obrigação de
olhar este seu novo hobby com total responsabilidade.
Esta responsabilidade você
deve ter, em primeiro lugar, com sua própria
segurança, em respeito a sua
família, em respeito aos seus companheiros de vôo e
com sua rampa de vôo.
Existe toda uma imagem que o cercará como piloto.
Existe todo um universo de responsabilidade em volta
de você. E um universo que
vai muito além do ´´ oba oba ´´ da festa após um vôo
bem sucedido. Temos pessoas
que nos esperam de volta em casa, temos amigos, temos
trabalho.
Ser um piloto de vôo livre, é muito diferente do que
alguns pensam tratar-se de
pessoas destemidas e loucas.
Ser um piloto de vôo livre é, acima de tudo, ser
alguém que reconhece a grande
dádiva que lhe foi dada, que é poder voar. E agradece
a isso procurando se
tornar alguém cada vez melhor, em todos os aspectos de
sua vida.
E, como piloto, também busca aprimoramento técnico a
partir de treino constante.
Você nunca perde por voltar ao morrinho da escola para
treinar os fundamentos da
decolagem.
Você só ganha... e ganha algo muito mais importante
que apenas uma medalha,
apenas um trófeu.
Ali no morrinho da escola, onde tudo começou, você
está sempre confirmando o seu
direito de voar livre.
Treine em respeito a você. Treine em respeito a todos
nós !
Treine sempre !
Samuel Almeida de Souza
G-043
Instrutor / Vôo Duplo
NorteAR Cachoeiro
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