Decolagens
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Decolagens
O meu primeiro parapente foi um Electra da ITV.
Adquirido em fins de 89 veio, por sabedoria do amigo que o trouxe da França,
acompanhado do livro “Volez em Parapente” do Gerald Delorme. Por me conhecer de
longa data e de outros ares, ele me entregou o livro comentando “tomei a
iniciativa porque te conheço e acho que assim vai ser mais fácil”.
Mas antes de seguir adiante, um parêntesis.
Parapentezinho desgraçado de ruim era esse – a ITV
anunciava no manual (uma simples folha de papel dobrada) que o L/D era 4,5 e,
desde aí, eu passei a não acreditar em L/D de manual. O Electra 26, que na
verdade só tinha 24 m2, muito pouco para os meus 85 kg, voava menos, talvez uns
3,5. Ou melhor, caía menos. Ou mais!
Teve um dia que eu decolei direto para a praia e não
cheguei – o normal era fazer uma curva de 90 graus e pousar na areia, não mais
que isso!
Lift no túnel, só com vento muito forte e assim mesmo,
o máximo que dava era uns poucos bordos e logo eu estava abaixo da crista
enquanto quem estava de Kestrel continuava lá pelo tempo que quisesse (o
Kestrel já tinha um L/D verdadeiro de 5,5, tamanhos adequados e permitia alguma
ambição de performance – aliás, o Ruy Narra, que foi ao Cristo de Kestrel em
1990, deve achar muita graça de certos ufanismos de quem vai com parapentes
performantes hoje).
Mas nesse infausto dia, eu me joguei no campinho de
futebol society que existe no “morrinho do perdão”, coisa impensável, a não ser
que estolado e no limite da parachutagem, com os velames atuais com seu planeio
acima de 8.
Pois é, logo que comecei a entender do assunto lendo o
livro e assistindo aos vôos no Pepino, concluí que o único problema para se
voar um parapente em condições tranqüilas, abstraindo turbulências, rotores e
os colapsos conseqüentes, era a decolagem.
Eu sempre explico para os amigos que o parapente é uma
máquina voadora absolutamente estável e que, se em um passe de mágica, fosse
possível colocar um leigo em vôo a 500 de altura, bastaria êle saber que,
puxando o batoque para um lado ou outro, se lhe dá direção e ele acabaria
chegando no chão sem muito estrago - fosse possível fazer o mesmo com uma asa
delta e em poucos minutos o leigo faria um buraco no chão.
E concluí também, que a decolagem poderia ser feita de
duas formas.
Uma, com muita fé, simplesmente saindo em desabalada
corrida ladeira abaixo (as velas antigas, na sua maioria, exigiam essa
correria), sem checar o velame e sem pensar em lhe fazer qualquer correção, ou
então, procurar seguir o livro que estabelecia claramente uma V1 como em avião
- uma velocidade de decisão, decola/não-decola.
Só que em vez de V1, velocidade, era um momento de
decisão, justamente o cheque do velame, que pouca gente fazia.
Foi a partir daí, desde o início, que eu valorizei
sobremaneira esse cheque, e julguei o seu controle tão importante antes de
começar a voar, que ensinei ao meu irmão a correr sempre olhando para cima até
sair voando. Foi o que eu denominei na época de “decolagem padrão” – o difícil
era conseguir velocidade olhando pra cima.
Foi em 91 que mudei de conceito. Por duas razões quase
coincidentes no tempo.
A primeira, por ler um artigo de um instrutor espanhol
na Revista Vuelo Libre Parapente no qual êle segmentava a decolagem em três
movimentos. O inflar, o checar e o acelerar para obter a maior velocidade
possível, com os braços para trás e as mão altas, quase sem frear (aquele velho
papo pelotense “a sustentação é uma rosa colhida no jardim da velocidade”).
O segundo motivo foi um encontro de pilotos em
Itamonte em que, numa rampa horizontal, sem inclinação e sem vento nenhum,
ninguém estava conseguindo decolar. Até que a Valerinha, uma charmosa e mui
linda morena voadora de Santos, acho que aluna do Hering (certamente foi porque
não havia ainda outro instrutor em SP), colocou o paraca bem lá atrás, inflou
com um tremendo tranco e, para surpresa minha, após checar habilmente o velame,
assumiu a posição de decolagem “espanhola” conseguindo a velocidade necessária
para sair voando.
A partir desse momento, adotei a “posição 3” na minha
instrução e a coloquei nos escritos iniciais do MAPIL.
Passados 15 anos, por mais surpreendente que possa
parecer, um em cada três pilotos que fazem decolagem alpina em São Conrado, não
checam o velame e entregam esse problema ao Onipotente Senhor. Especialmente
quando não há vento, porque o espaço é realmente curto para fazê-lo.
Obviamente, isso é conseqüência de instrução
deficiente, normalmente, em vista da pressa em levar o aluno logo para o
morrinho de forma que êle tire o pé do chão e fique todo feliz e grato ao
instrutor. E porque, condicionar o aluno a fazer o cheque automaticamente, e
sem pensar, toma tempo e dá trabalho.
Existe, também, é necessário registrar, o piloto “independente”
que aprende certo, mas que depois que se livra do instrutor e fica por conta
própria, simplesmente começa a fazer tudo do “seu jeito”, normalmente pior.
Mas existem também, como compensação, aqueles que logo
têm consciência da deficiência com que foram liberados e passam horas e horas
treinando de moto próprio no plano até chegarem a um nível de proficiência
muito bom.
E a decolagem “espanhola”? É indispensável?
Não, não é. Ela é muito importante em rampa plana e
sem vento.
Onde o vento é forte, normalmente se decola antes de
assumir a posição 3, ao travar o avanço do velame. E onde o gradiente da rampa
é acentuado, como no Pepino, ela também não é fundamental. Mas ainda assim, é
bom tê-la no nosso repertório de condicionamentos - é gratificante ver a
quantidade de pilotos que não aprenderam a técnica no seu curso, mas que buscam
o seu domínio treinando no plano em dias de vento.
Aproveitemos o ensejo também para comentar a decolagem
invertida. Ela é técnica indispensável na evolução do piloto (especialmente
para aqueles que não checam o velame na alpina) e deve ser dominada treinando
com vento no plano - é ilusão achar que se aprende a decolar invertido no
morrinho, perde-se é tempo.
Porque se o parapente infla certo, é só virar e
decolar e não se aprendeu nada. Se infla errado e alguma correção se faz
necessária, sem treinamento no plano, vai-se acabar é abortando n vezes e se
perdendo tempo e se cansando.
Mas os tempos hoje são bons e tudo ficou mais fácil!
Antigamente, acreditem, era proibido inflar parapente
no gramado de pouso do Pepino e era uma dificuldade encontrar um lugar adequado
para se treinar e adquirir proficiência no domínio do velame.
Até mesmo dobrar parapente e desmontar asa era
proibido. Hoje, é só ter vontade. E ficar atento para não complicar os
eventuais pousos que estejam se aproximando (especialmente de asa).
Quanto às diversas técnicas para decolar invertido,
todas são boas. Umas mais, outras menos – a única restrição que fazemos é
àquela em que os batoques são soltos quando se vira de frente. A melhor é a que
você se habituou a fazer, domina e faz automaticamente.
E procure fazer sempre da mesma forma.
Vire sempre no mesmo sentido, mesmo sabendo que, dependendo
do vento cruzado, às vezes é melhor virar para um lado do que para o
outro.Evite fazer isso a não ser que você tenha muita confiança no seu taco.
Porque virar para o lado errado num momento crítico pode ter conseqüências bem
ruins.
Vamos treinar e corrigir nossos erros?
O tapetão gramado agora está disponível. Tire um
tempinho para treinar no plano e você verá com a sua decolagem irá melhorar.
Paulo Pinto - MAPIL
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